Bem vindo(a)!!

Então, esse é um cantinho no qual gosto de expor textos, artigos, crônicas, vídeos ou matérias que gosto. Quando aparece alguma inspiração, também escrevo. É isso... Beeeijos! ;*

domingo, 18 de julho de 2010

Os Lugares estão cheios de pessoas vazias


Nesse final de semana fui a uma balada que tanto ouço o pessoal jovem falar (afilhado, filhos de amigos) e, confesso, há tempos não saio na noite e nem vou a lugares cheios, com muito barulho, pessoas falando ao mesmo tempo e brigando por uma mesa, geralmente bambas e super apertadas.

Há muito que me decidi não ir a shoppings, circuitos fashions badalados, restaurantes com gente mal educada falando alto exibindo a última tecnologia em celulares. Não gosto de sair do conforto da minha casa para ficar me acotovelado em filas intermináveis... mas como era aniversário de uma amiga querida, lá fui eu...

Devo dizer que esses bares atuais são de muito bom gosto, decoração apropriada, luz com a intensidade ideal que fazem “todos os gatos parecerem pardos”, o chope bem tirado, a porção de salgadinhos, apesar de fritura é saborosa, a música acompanhando a batida do nosso coração, com um “TUM TUM” bastante grave e garçons simpáticos atropelando-nos pelos corredores entre as mesas.

Um lugar bastante atraente, com pessoas bonitas, caras sarados, garotas de capas de revistas, que nada ficam a dever às platéias de uma Fashion Week. Tenho notado que atualmente a cara da noite é outra bem diferente... Não quero aqui ser saudosista, mas os antigos bares noturnos não mais existem, aqueles do banquinho e do violão com músicas que todos à volta cantavam seus refrões, quem não cantou em coro?
“Vi tanta areia andei, da lua cheia eu sei, uma saudade imensa”.

Hoje o afair acontece no coletivo, grupos de pessoas se reúnem para irem aos bares, ouvir música e beberem, mas nunca para conversarem olho no olho, mão na mão, mesmo porque o volume é tão alto e a muvuca é tão grande que se torna impossível existir o clima romântico do violão e do banquinho.

Pergunto-me: onde ficou o romantismo? Em que esquina ele foi esquecido? Os bares estão cheios de pessoas vazias, não existe conteúdo, não existe lógica; falta essencialidade (não sei se a palavra é essa), mas é assim que entendo e vejo essa grande massa que não sabe o que procura e se entorpece de álcool com as chamadas bebidas que potencializam nosso coração, com cafeína. E saem depois à toda com seus carrões e motos, batendo, matando e morrendo a cada esquina, tudo para irem parar no Instituto Médico Legaallll ou em uma cadeira de rodas.

Tudo na vida tem de haver um certo charme, para que nos tornemos interessantes para o outro, para que no outro dia exista uma vontade imensa de ligar novamente e querermos repetir a dose do dia anterior, do bom papo, das experiências trocadas, dos segredos compartilhados, daquela música que fica em nossa mente fazendo-nos lembrar da pessoa que estava em nossa companhia ,do beijo em que passávamos a semana inteira lembrando daquele momento mágico.

Mas talvez o ponto seja a falta de comprometimento, uma ausência de empatia. Estamos descartáveis demais...
Beija-se fácil e abraça-se pouco. O diálogo não tem começo nem meio e nem fim (isso quando há diálogo), todos falam ao mesmo tempo e ninguém exercita mais o escutar, o prestar atenção, ninguém fala nada com nada e quando fala percebe-se um ego imenso em torno de cada palavra, toda frase em geral começa na primeira pessoa do singular e jamais na primeira pessoa do plural.

Observa-se mulheres lindas e mal educadas, que são incapazes de agradecerem uma gentileza; homens engravatados circulando com carro do ano, que não sabem o que é dizer um... Por favor! Obrigado! Com licença... Palavras mágicas que aprendemos lá nos primórdios da nossa educação.

Hoje somos tolos em tudo, somos tolos quando acreditamos que tudo sabemos da vida, quando pensamos que o outro não nos faz falta e que podemos viver com arrogância e intolerância. Raríssimas são as vezes em que casais ou famílias se cumprimentam ou trocam cordialidades em um mesmo ambiente. Noto casais com filhos ainda recém-nascidos nos ambientes totalmente fechados em suas células familiares. Como essa criança irá se socializar e tornar-se uma pessoa livre de preconceitos, se não trocar afeto com outras crianças, na rua?

Hoje, o romantismo, a relação humana e o respeito estão plastificados, como a foto do nosso RG sem nenhuma expressão, vivemos no mundo do faz-de-conta, fazemos de conta que somos felizes, fazemos de conta que entendemos de tudo, fazemos de conta que tudo sabemos, e nesse mundo irreal, acabamos solitários e infelizes à frente de uma televisão, estáticos - novamente como na foto do nosso RG - a sonhar com um mundo virtual na tela do nosso laptop feito de pessoas tristes e sozinhas.

À noite, as baladas e as luzes nos atraem como mariposas fazendo-nos voar em torno desse glamour, dessas luzes coloridas. Realmente, diante de tanto aparato todos nós somos iguais. Afinal, o que vale nesse caso é o exterior, um cabelo bem feito, um corpo sarado e roupas de grife. Mas, em geral, somos iguais ao bambu imperial, bonitos e viçosos por fora, mas irremediavelmente ocos por dentro. Somos apenas peças de decoração iguais aos manequins das lojas da Oscar Freire.

Sinceramente, não troco o conforto da minha casa pelas intermináveis filas, mas troco as baladas noturnas por uma boa pizza na casa dos amigos na sexta–feira à noite e me sinto maravilhosamente feliz quando me reúno com minha família e amigos em um churrasco num domingo de sol, seja aqui ou seja na praia... pois os lugares estão cheios de pessoas vazias.

Pense nisso!

Nelson Sganzerla

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Amar é…se escangalhar de tanto rir juntos.


A frequência ideal de sexo, por semana, é um dos debates mais inconclusivos que conheço sobre as fórmulas que levam à felicidade de um casal. Ora as pessoas se sentem desencaixadas quando sai uma pesquisa mostrando que o brasileiro faz 5x por semana, ora é um ranking internacional mostrando que os suecos transam mais (um chute, gente, é só pra ilustrar). Aí vem uma pesquisa definitiva provando que homens e mulheres estão insatisfeitos com o número de vezes que fazem amor com seus parceiros. Uns querem mais, outros menos.

Tudo isso é tão particular e tão variável, que não vejo muito sentido em buscar respostas externas para os dramas e as delícias particulares. Vai saber o que é satisfatório para mim ou para você? Para entender o amor, é preciso muito mais, claro, é preciso mergulhar numa mistura de ciência e poesia proposta pelo sociólogo italiano Francesco Alberoni, tema do ótimo post da Martha.

Mas tem uma característica presente nos casais felizes que, para mim, é essencial: eles se divertem juntos. Riem e são cúmplices até nas piadinhas. Tem tiradas que só eles entendem e partilham, provavelmente extraídas de filmes que assistiram. Casais felizes choram de tanto rir juntos.

Eu vinha pensando nisso outro dia – depois de um ataque de risos com meu marido – quando o tema veio à tona na minha entrevista com Liliane, a mulher do ministro da Saúde, José Gomes Temporão. O ministro, como vocês já sabem, ganhou as páginas dos jornais semana passada com um tema que o brasileiro adora: sexo. Ele fez uma gracinha recomendando sexo cinco vezes por semana para prevenir a hipertensão, doença grave que afeta boa parte da população brasileira. A opinião de Liliane está na reportagem de capa de Época desta semana. Lá pelas tantas, ela me disse o seguinte sobre casamento:“Olha, você não imagina como somos felizes. É uma relação muito leve. A gente se diverte muito juntos”.

Se ela é feliz, isso tem que ser verdade. Pensei nos casamentos frustrados à minha volta. Todos parecem padecer da mesma ausência crônica de humor, da incapacidade de usufruir do riso como uma manifestação de cumplicidade, prazer e autenticidade. Boa parte da minha felicidade deve-se à essa intimidade do riso, que tornou vários dos nossos momentos inesquecíveis.


Faz alguns anos, viajávamos de carro sozinhos. Não tínhamos filhos. Cantávamos em alto e bom som com Gilberto Gil no CD. Até que chegamos em “Sítio do Pica Pau Amarelo”.

Na hora do refrão, meu marido parou de cantar para me ouvir. Tirou os olhos da estrada por um instante para me encarar com um certo sorriso no canto dos lábios.
“O sol nasce…on-de?”
Eu completei e ele começou a rir, enquanto me dizia “você está falando sério?”
“Sim, a música é assim!”

Eu não entendia qual era a graça, mas ele ria cada vez mais, e quanto mais ele me ouvia cantando, mais ria. Entre um soluço e outro me explicou que o trecho que eu estava cantando errado, na verdade, era “o sol nascente é tão belo”. Tentou respirar diante da minha expressão interrogativa.

“O quê?”, eu, pasma. “Claro que não. O sol nascente é tão belo? Tem certeza? Você viu a letra? Vamos ouvir de novo?”

E eu repetia a música, ainda sem acreditar. “Vai me dizer que faz mais de 25 anos que eu canto essa música errada?”.

Diante da minha incredulidade, ele ria cada vez mais.

“Tem certeza? Olha só, eu via o Sítio todos os dias e…acho que uma amiguinha cantava assim também…”

Eu não conseguia rir, mas ele teve de parar no acostamento porque não podia mais dirigir, as lágrimas impediam que ele enxergasse, enquanto eu tentava me explicar.

“Sempre achei que Giacombelo fosse um lugar. O sol nasce em Giacombelo-u-hu-u-huuuu. Sítio do Pica Pau Amareluuuu…”

Ele já estava a ponto de passar mal. Eu continuava, ainda um pouco atônita, porque você passa 28 anos da sua vida acreditando em algo que se desmancha numa verdade revelada à queima-roupa durante uma viagem? Não é fácil. Vocês devem me entender.

“Você não acha que Giacombelo poderia ser um lugar depois do Reino das Águas Claras? O sol nascia lá! Em Giacombelo! Afinal, o Sítio era um lugar onde coisas estranhas aconteciam, tinha a Cuca…o Gilberto Gil mesmo, na música, fala em universo paralelo”.

Achei que ele fosse ter um troço.

“Com 5 anos eu não sabia onde o sol nascia, por isso fazia sentido Giacombelo ser meu universo paralelo…”
“Giacombelo…” – ele, com lágrimas rolando no rosto, tentava se controlar, mas a gargalhada voltava impiedosa.

Não demorei a achar tudo engraçado. Meu acesso de riso se juntou ao dele e rimos até chorar. Giacombelo não era um universo paralelo. Não existia. Puxa.

Qual foi a última vez que você rolou de rir com seu parceiro/sua parceira?

E, cá pra nós, o Gilberto Gil adora neologismos (parabolicamará, infomaré…). Não custava nada ter inventado Giacombelo.

domingo, 25 de abril de 2010

A Alegria na Tristeza


O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.

Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.

Martha Medeiros

A dor que dói mais.


Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Martha Medeiros

terça-feira, 16 de março de 2010

Seja feliz e pronto.


A idiotice é vital para a felicidade. Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre.

A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado? Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações,
dores e afins.

No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota! Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você.

Milhares de casamentos acabaram-se não pela falta de amor, dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice. Trate seu amor como seu melhor amigo, e pronto.

Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo, soluções sensatas, mas não consegue rir quando tropeça?

Ha ha ha ha ha ha ha ha!

Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas não tem a menor idéia de como preencher as horas livres de um fim de semana?

É bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E daí, o que elas farão se já não têm por que se desesperar?

Tudo que é mais difícil é mais gostoso, mas... A realidade já é dura; piora se for densa. Dura, densa, e bem ruim.

Brincar é legal. Entendeu?

Esqueça o que te falaram sobre ser adulto, tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira, não ser imaturo, não chorar, não andar descalço, não tomar chuva.

Pule corda! Adultos podem (e devem) contar piadas, passear no parque, rir alto e lamber a tampa do iogurte.

Ser adulto não é perder os prazeres da vida - e esse é o único "não" realmente aceitável. Teste a teoria.

Uma semaninha, para começar. Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que realmente são: passageiras.

Acorde de manhã e decida entre duas coisas: ficar de mau humor e transmitir isso adiante ou sorrir...

Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!

Aliás, entregue os problemas nas mãos de Deus, confie e espere só NELE e pra relaxar que tal um cafezinho gostoso agora?

"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios". "Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche".

Seja você mesmo sempre e VIVA A VIDA!!!!

Arnaldo Jabor

quarta-feira, 10 de março de 2010

Terra em Transe.


O aquecimento global representa a promessa do não-lugar para a vida no planeta: a distopia finalmente chegou?

O sol, personagem essencial das paisagens, nem sempre surge nítido no Mato Grosso. Cumprindo calendário inesperado, ele e tudo o que desponta no horizonte se escondem sob espessa névoa amarelada que aparece nos meses de agosto e setembro. Não se trata de fenômeno natural, mas de conseqüência das queimadas realizadas no extenso eixo que vai do vizinho Mato do Grosso do Sul até o Pará. Por esse motivo, o céu, em diversos pontos nessa região do país, é invadido por volume tão expressivo de fumaça que não é possível vê-lo durante dois longos meses, todos os anos.

O problema é constantemente monitorado por satélite. Mas talvez seja sob a perspectiva da vida diária que as queimadas assumam dimensão ainda desconhecida para a opinião pública, sintetizando, simbolicamente, o caráter devastador e paradoxalmente transformador de paisagens nativas. Signo de um modelo de expansão econômica em países em desenvolvimento, essa antiga prática de abertura de fronteiras e de cultivo da terra tem sido alvo, no entanto, de novos enfoques em fóruns internacionais devido ao peso de sua contribuição na mudança do clima do planeta. O volume de dióxido de carbono proveniente das queimadas representa 20% das emissões mundiais desse gás, maior responsável pelo acirramento do efeito estufa. Segundo dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), a sua concentração na atmosfera em 2007 foi a mais elevada nos últimos 650 mil anos. O Brasil, que lança pelo menos 1 bilhão de toneladas de gás carbônico na atmosfera, encontra-se em quinto lugar no ranking mundial dos países produtores de gases do efeito estufa (GEE). Desse total, 75% são provenientes de mudanças no uso do solo e de queima de florestas.

Ana Maria Vieira

Vários jeitos de educar.


Participar de uma caminhada na Estação Ecológica e de uma oficina sobre reciclagem de lixo. Percorrer a trilha “Jardim Botânico” no Museu de História Natural. Acompanhar uma aula de Ciências com modelos de moléculas feitos de garrafa PET e materiais de baixo custo. Pesquisar e assessorar movimentos, entidades e ONGs ligadas à questão ambiental. Um ribeirinho de Lassance, Norte de Minas, cuidando do Rio das Velhas.

O que essas experiências aparentemente tão distintas têm em comum? Cada uma à sua maneira, todas envolvem a educação ambiental pensada de forma mais ampla, sensibilizando e incentivando as pessoas que as vivenciam a desenvolver novos olhares sobre o meio ambiente.

No Colégio Técnico da UFMG, o Coltec, as garrafas PET são encaradas como importante material didático, saindo da lixeira para virar moléculas e experimentos. Isso mesmo, moléculas, ou melhor, representações delas. A idéia surgiu da necessidade de explicar os conceitos das disciplinas de ciências para os estudantes. Esse material didático existe no mercado, só que é caro e pequeno para todos os alunos observarem enquanto o professor explica. O professor de Química do Coltec Alfredo Mateus percebeu essa carência e começou a produzir em 2002 os primeiros modelos de moléculas com materiais de baixo custo que normalmente vão para o lixo, como plástico e papelão. Além das representações das moléculas, o professor Alfredo também desenvolveu experimentos simples que podem ser reproduzidos nas salas de aula com esses materiais. Uma coleção das experiências foi reunida no livro Construindo com PET, que já está na segunda edição.

Para o professor, a utilização de experiências e de materiais pedagógicos de baixo custo envolve os estudantes durante as aulas. “Eles trazem o material de casa e, através dos atos de cortar, soldar, furar, montar, vão percebendo que aquele material é, na verdade, uma matéria-prima. Isso aumenta muito o interesse, porque os alunos vão falar de coisas que eles fizeram, o que é muito diferente de falar de um exercício, torna a coisa mais real”, avalia Alfredo Mateus.

A estudante do terceiro ano de Química do Coltec Kênia Fiaux concorda com o professor. “Ajudou mais na visualização. Às vezes ficava muito no campo das idéias: o átomo é assim, o elétron é assim. O entendimento e a aprendizagem ficam mais fáceis quando a gente pega, junta e vê.” Kênia também conta que a participação nas oficinas para construir as moléculas a sensibilizou para a questão ambiental. “Nunca achava que era possível reutilizar; muita coisa era usada e jogada fora. Agora olho uma garrafa de Coca-Cola de outra forma: posso fazer isso ou aquilo.”


Multiplicidade de iniciativas em curso na UFMG ajuda a desenvolver novos olhares sobre o meio ambiente
Humberto Santos e Marina Garcia